Beatbox: uma musicalidade emergente no território nacional
- Portal EntreFocos

- 4 de dez. de 2025
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Jovem brasileiro é classificado em segundo lugar para a maior competição de beatbox da América Latina, trazendo representatividade para o país
Isabelli Guertas Martins da Silva
Supervisão: Prof. Antônio Iraildo Alves de Brito
O termo Beatbox refere-se a uma musicalidade totalmente baseada na percussão vocal. A técnica nasceu na década de 80 em Nova Iorque, mas passou a ganhar altos níveis de popularidade apenas a partir dos anos 2000. Com influências vindas da ascensão do Hip-hop, o beatbox se estabeleceu no território brasileiro no início dos anos 90, onde ganhou muita força na cidade metropolitana de São Paulo, e, atualmente, se populariza cada vez mais através de apresentações realizadas dentro dos vagões de metrô da cidade, além de ser muito associada a uma forma de base musical para apresentações de rap.

Desde então, o gênero vem ganhando mais espaço na cena brasileira, mas foi há cerca de apenas uma década atrás que o beatbox passou a ser realizado de forma independente da rima, conquistando novos ritmos e desenvolvendo características únicas. Com isso, o ritmo ainda luta para estabelecer um cenário sólido no país, mas vem demonstrando sua amplitude e evolução todos os dias.
“O beatbox é uma coisa muito recente, o cenário do Brasil ainda é muito fresco. Então, tá tendo essa evolução, mas a gente entende ainda que tá nesse trajeto inicial” relata Thiago Mautari, rapper representante do gênero e cofundador do grupo Beatfellas, responsável pelos mais importantes eventos de beat do país.
“Eu trabalho com beatbox desde 2013, faz 12 anos já que faço isso profissionalmente. A gente fundou a Beatfellas em 2015, sentimos a necessidade de criar um coletivo pra conseguir ter uma cena mais fixa, ter um ritmo e conseguir criar um cenário. Antes até tinha alguns eventos mas era algo bem esporádico [...] E a gente faz batalhas, oficinas de beatbox, só que de maneira fixa, pra que a gente consiga criar um cenário de fato.”
As batalhas nacionais realizadas pelo grupo também servem como porta de entrada para grandes competições internacionais, como o Maestro Beatbox América (MBA), campeonato latino que reunirá 60 participantes de todo o continente americano durante três dias de evento, no qual, por sua vez, o prêmio garante uma vaga no Grand Beatbox Battle (GBB), que eleva a transmissão para o nível mundial.
Na edição de 2026 do MBA, o Brasil é o país com mais classificados na lista, ocupando quase metade dos nomes, com 9 dos 20 primeiros colocados sendo brasileiros.
Dentre todos eles, o atual campeão nacional Aaron Matos foi classificado com a segunda nota mais alta do placar geral: 95.5, ficando atrás apenas do argentino Astron. “O beatbox representa uma parte essencial da minha vida, é um meio que eu uso para criar algo que expresse o que eu penso e que, ao mesmo tempo, agrade e inspire a outras pessoas, isso pra mim é a maior recompensa disso tudo”, diz o jovem, “Eu fiquei muito feliz, ainda mais por passar em segundo lugar. Eu estaria muito feliz já, só de ter passado, mas a colocação alta me deixou mais feliz e satisfeito ainda”.
Com a crescente popularidade do gênero musical entre os brasileiros, a relevância de um campeonato transmitido internacionalmente pode servir como incentivo e aumentar o número de artistas interessados pela cena nacional, como afirma Mautari. “Eu acho isso [a classificação] ótimo, acho que a gente está na melhor época do cenário nacional. Essa é uma das provas que a gente conseguiu! A gente tem quatro artistas que vão pra lá [MBA], é o Aaron, o Dux, o Magnum e o Duts. Acho que isso traz uma força muito grande pra gente, porque é outra forma de a gente agregar pra cultura nacional.
Existe um cenário muito bonito, tem muitos campeões aí que a gente tem bastante orgulho e a gente acredita muito nesse lance de [fomentar a] cultura nacional. A gente foi criado com uma cultura que, muitas vezes, é muito mais valorizada a cultura estrangeira do que a nossa, tá ligado?
Por outro lado, tem muitas pessoas que gostam de beatbox e que não conhecem a cena nacional, conhece mais a cena de fora. Então, muitas vezes, esses quatro que vão pra lá, podem ajudar a movimentar de uma outra forma essas pessoas que não tem conhecimento da cena nacional. Então, é de grande valia, é uma riqueza muito grande eles estarem indo pra lá. [...] Então, acho que é muito rico, e fico muito orgulhoso dos caras, isso é muito legal.”
“Eu sinto que estou representando o país muito bem, e no evento principal vou dar meu melhor pra representar da melhor forma possível. e talvez ser o primeiro brasileiro a se classificar para o mundial”, completa Aaron.
Ao invés de replicar modelos importados, a cena brasileira recria, reinventa e afirma sua autonomia, utilizando o beatbox como meio de expressão, crítica e criação identitária. Ela se consolida como instrumento fundamental para desafiar padrões impostos e reivindicar o espaço da cultura periférica no cenário nacional e internacional.
O especialista diz: “A gente [Beatfellas] acredita muito nisso de a gente valorizar nóis [mesmos]. E ainda de tentar mudar aquela expressão “aí vou dar o jeitinho brasileiro’. O ‘jeitinho brasileiro’ eu sinto que ele é distorcido, porque na verdade, o jeitinho brasileiro é aquela mulher que cria três filhos sozinha; jeitinho brasileiro é o cara que tem que ter dois trampos para conseguir ajudar a mãe em casa… A gente acredita nesse jeitinho brasileiro, tá ligado? Que esse é o verdadeiro jeitinho brasileiro. Então, a gente quer muito que isso chegue em mais pessoas, para as pessoas entenderem que a gente tem uma cultura muito bonita nacionalmente.”
As histórias como as de Aaron e Mautari não somente moldam o espírito de conquista e crescimento, mas também impactam muito mais do que apenas os jovens selecionados. Classificações nesta escala se revelam como a esperança de uma maior representatividade para um gênero criado nas periferias americanas e que vem se conectando a cada dia mais com a realidade de centenas de artistas brasileiros, abrindo um leque de novas possibilidades e criando mais representatividade.
"Irmão, você é o maior representante do seu sonho na face da Terra, se você não correr atrás dos seus bagulhos, o sistema nunca vai falar pra você correr… Então você representa isso." Comenta Thiago, relembrando uma conversa que teve com o cantor Emicida em um momento crucial de sua vida e no início de suas carreiras
A melodia não fortalece somente a cultura periférica, mas também a própria identidade nacional. Ao adaptar e ressignificar uma arte que nasceu em outro contexto, artistas brasileiros transformam o beatbox em uma expressão genuinamente local, carregada de vivências, sotaques e ritmos que traduzem a diversidade do país.








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