top of page

Beatbox: uma musicalidade emergente no território nacional

  • Foto do escritor: Portal EntreFocos
    Portal EntreFocos
  • 4 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Jovem brasileiro é classificado em segundo lugar para a maior competição de  beatbox da América Latina, trazendo representatividade para o país


Isabelli Guertas Martins da Silva

Supervisão: Prof. Antônio Iraildo Alves de Brito



O termo Beatbox refere-se a uma  musicalidade totalmente baseada na  percussão vocal. A técnica nasceu na  década de 80 em Nova Iorque, mas  passou a ganhar altos níveis de  popularidade apenas a partir dos anos  2000. Com influências vindas da  ascensão do Hip-hop, o beatbox se  estabeleceu no território brasileiro no início dos anos 90, onde ganhou muita  força na cidade metropolitana de São  Paulo, e, atualmente, se populariza cada  vez mais através de apresentações  realizadas dentro dos vagões de metrô da  cidade, além de ser muito associada a  uma forma de base musical para  apresentações de rap. 


Aaron Matos representou o Brasil na edição de 2025 do MBA | Christiane Evangelista
Aaron Matos representou o Brasil na edição de 2025 do MBA | Christiane Evangelista

Desde então, o gênero vem  ganhando mais espaço na cena brasileira,  mas foi há cerca de apenas uma década  atrás que o beatbox passou a ser  realizado de forma independente da  rima, conquistando novos ritmos e  desenvolvendo características  únicas. Com isso, o ritmo ainda luta para  estabelecer um cenário sólido no país,  mas vem demonstrando sua amplitude e  evolução todos os dias. 


“O beatbox é uma coisa muito  recente, o cenário do Brasil ainda é  muito fresco. Então, tá tendo essa  evolução, mas a gente entende ainda que  tá nesse trajeto inicial” relata Thiago  Mautari, rapper representante do gênero e cofundador do grupo Beatfellas,  responsável pelos mais importantes eventos de beat do país. 


“Eu trabalho com beatbox desde 2013, faz 12 anos já que faço isso  profissionalmente. A gente fundou a  Beatfellas em 2015, sentimos a  necessidade de criar um coletivo pra  conseguir ter uma cena mais fixa, ter um  ritmo e conseguir criar um cenário.  Antes até tinha alguns eventos mas era  algo bem esporádico [...] E a gente faz  batalhas, oficinas de beatbox, só que de  maneira fixa, pra que a gente consiga  criar um cenário de fato.” 


As batalhas nacionais realizadas  pelo grupo também servem como porta  de entrada para grandes competições  internacionais, como o Maestro Beatbox  América (MBA), campeonato latino que  reunirá 60 participantes de todo o  continente americano durante três dias  de evento, no qual, por sua vez, o prêmio  garante uma vaga no Grand Beatbox  Battle (GBB), que eleva a transmissão  para o nível mundial.

 

Na edição de 2026 do MBA, o  Brasil é o país com mais classificados na  lista, ocupando quase metade dos nomes,  com 9 dos 20 primeiros colocados sendo  brasileiros.

Dentre todos eles, o atual  campeão nacional Aaron Matos foi  classificado com a segunda nota mais  alta do placar geral: 95.5, ficando atrás  apenas do argentino Astron. “O beatbox  representa uma parte essencial da minha  vida, é um meio que eu uso para criar  algo que expresse o que eu penso e que,  ao mesmo tempo, agrade e inspire a  outras pessoas, isso pra mim é a maior  recompensa disso tudo”, diz o jovem,  “Eu fiquei muito feliz, ainda mais por  passar em segundo lugar. Eu estaria  muito feliz já, só de ter passado, mas a  colocação alta me deixou mais feliz e  satisfeito ainda”. 


Com a crescente popularidade do  gênero musical entre os brasileiros, a  relevância de um campeonato  transmitido internacionalmente pode  servir como incentivo e aumentar o  número de artistas interessados pela cena  nacional, como afirma Mautari. “Eu  acho isso [a classificação] ótimo, acho  que a gente está na melhor época do  cenário nacional. Essa é uma das provas  que a gente conseguiu! A gente tem  quatro artistas que vão pra lá [MBA], é  o Aaron, o Dux, o Magnum e o Duts.  Acho que isso traz uma força muito  grande pra gente, porque é outra forma  de a gente agregar pra cultura nacional. 


Existe um cenário muito bonito,  tem muitos campeões aí que a gente tem  bastante orgulho e a gente acredita  muito nesse lance de [fomentar a]  cultura nacional. A gente foi criado com  uma cultura que, muitas vezes, é muito  mais valorizada a cultura estrangeira do  que a nossa, tá ligado?


Por outro lado, tem muitas  pessoas que gostam de beatbox e que  não conhecem a cena nacional, conhece  mais a cena de fora. Então, muitas vezes,  esses quatro que vão pra lá, podem  ajudar a movimentar de uma outra  forma essas pessoas que não tem  conhecimento da cena nacional. Então,  é de grande valia, é uma riqueza muito  grande eles estarem indo pra lá. [...]  Então, acho que é muito rico, e fico  muito orgulhoso dos caras, isso é muito  legal.” 

“Eu sinto que estou  representando o país muito bem, e no  evento principal vou dar meu melhor pra  representar da melhor forma possível. e  talvez ser o primeiro brasileiro a se  classificar para o mundial”, completa  Aaron. 


Ao invés de replicar modelos  importados, a cena brasileira recria,  reinventa e afirma sua autonomia,  utilizando o beatbox como meio de  expressão, crítica e criação identitária.  Ela se consolida como instrumento  fundamental para desafiar padrões  impostos e reivindicar o espaço da  cultura periférica no cenário nacional e  internacional. 


O especialista diz: “A gente [Beatfellas] acredita muito nisso de a gente valorizar nóis [mesmos]. E ainda  de tentar mudar aquela expressão “aí vou dar o jeitinho brasileiro’. O ‘jeitinho  brasileiro’ eu sinto que ele é distorcido,  porque na verdade, o jeitinho brasileiro  é aquela mulher que cria três filhos sozinha; jeitinho brasileiro é o cara que  tem que ter dois trampos para conseguir  ajudar a mãe em casa… A gente acredita  nesse jeitinho brasileiro, tá ligado? Que esse é o verdadeiro jeitinho brasileiro.  Então, a gente quer muito que isso  chegue em mais pessoas, para as  pessoas entenderem que a gente tem uma  cultura muito bonita nacionalmente.” 


As histórias como as de Aaron e  Mautari não somente moldam o espírito  de conquista e crescimento, mas também  impactam muito mais do que apenas os  jovens selecionados. Classificações  nesta escala se revelam como a  esperança de uma maior  representatividade para um gênero  criado nas periferias americanas e que  vem se conectando a cada dia mais com  a realidade de centenas de artistas  brasileiros, abrindo um leque de novas  possibilidades e criando mais  representatividade. 


"Irmão, você é o maior  representante do seu sonho na face da  Terra, se você não correr atrás dos seus  bagulhos, o sistema nunca vai falar pra  você correr… Então você representa  isso." Comenta Thiago, relembrando  uma conversa que teve com o cantor Emicida em um momento crucial de sua  vida e no início de suas carreiras 


A melodia não fortalece somente a cultura periférica, mas também a  própria identidade nacional. Ao adaptar  e ressignificar uma arte que nasceu em  outro contexto, artistas brasileiros  transformam o beatbox em uma  expressão genuinamente local, carregada  de vivências, sotaques e ritmos que  traduzem a diversidade do país. 



Comentários


bottom of page