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Bodas de ouro de um espetáculo dourado:50 anos de A Chorus Line

  • Foto do escritor: Portal EntreFocos
    Portal EntreFocos
  • 4 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Da Broadway aos palcos brasileiros, o clássico de Michael Bennett celebra meio século de vida e retorna aos palcos de São Paulo


Matheus França

Supervisão: Prof. Antônio Iraildo Alves de Brito


“Cinco, seis, sete, oito…”: nasce um clássico 

Em um palco vazio, mas cheio de sonhos, bailarinos que enxergam a arte como combustível lutam pela oportunidade de trabalhar com aquilo que amam. As luzes se acendem e revelam rostos cansados, esperançosos e aflitos por aprovação, um reflexo de quem não sabe qual será o próximo passo. Nesse ambiente de tensão e inquietação nasceu A Chorus Line, um musical que transformou simples bailarinos em protagonistas inspiradores na busca por sonhos que, em determinadas circunstâncias, parecem inalcançáveis. Desde a sua estreia em 1975, a obra ocupa um lugar transformador no gênero, por contar histórias geralmente ignoradas e expor, sem medo, as inseguranças e o medo da rejeição diante de uma audição. Em 2025, o musical completou 50 anos de uma história que ainda pulsa e emociona espectadores ao redor do mundo. 


Elenco original de A Chorus Line | Martha Swope 
Elenco original de A Chorus Line | Martha Swope 

Michael Bennett, idealizador do musical, apelou para o desconhecido e inovou ao planejar um espetáculo em que artistas falassem de si mesmos. A narrativa assume o formato de uma

verdadeira metalinguagem ao trazer, para o primeiro plano, as questões de quem dedica a vida à arte. Na época, o teatro musical norte-americano atravessava um momento de transformação, em que o novo ganhava espaço e atraía grandes públicos. Produções de sucesso como Hair (1967) e Chicago (1975) foram idealizadas nesse período.


Acompanhando essa onda, A Chorus Line apostou em cenários simples ao destacar o elenco, sem exceções, como o ponto alto da história. As músicas de Marvin Hamlisch, com letras de Edward Kleban, dialogam perfeitamente com a coreografia de Bennet e Bob Avian. Sem pontas soltas e no auge da simplicidade poética, o musical se mantém como uma das obras mais complexas da Broadway do ponto de vista emocional, mesmo após 50 anos de sua estreia. 


Inicialmente, o musical estreou no cenário Off-Broadway, ou seja, em um teatro profissional nova-iorquino com capacidade entre 100 e 499 lugares. Com o imediato sucesso de público, a produção foi transferida para a Broadway, em um teatro com 500 ou mais assentos, meses depois. A montagem original recebeu doze indicações ao Tony Awards e venceu nove categorias além de acumular triunfos em outras premiações, o que reforçou seu impacto histórico no teatro musical. “A Chorus Line” voltou aos palcos diversas vezes, em versões que adotaram novas roupagens sem alterar a essência da narrativa, que permanece como o sétimo espetáculo de maior duração da Broadway.  


Repleto de números impecáveis como “I Hope I Get It”, “At the Ballet”, “The Music and the Mirror”, “What I Did for Love” e “One”, o musical mantém sua relevância ao longo das décadas justamente por seu teor atemporal e universal, sustentado pela ideia de “querer ser escolhido”, ponto que aproxima o espectador das cenas. Guilherme Garcia, que descreve sua relação com a arte como algo que “vem de berço” e demonstra forte paixão pelo teatro musical, comentou: “Chorus Line, de verdade, me ganhou de todas as maneiras, foi uma experiência singular.” Ele ainda revelou sua vontade de entrar para o universo do teatro e vê essa história como uma porta de entrada: “Eu considero o musical da minha vida, talvez.” 


Do Off-Broadway aos palcos brasileiros 

No alvorecer dos anos 80, o teatro brasileiro vivia um novo ciclo de consolidação e exploração de novas ideias. Devido aos longos anos de repressão política, a arte teve de se reinventar em solo brasileiro, à medida que buscava novas histórias para serem contadas nos palcos sedentos por expressões artísticas. Esse cenário colocou as montagens da Broadway no radar dos produtores, despertando o desejo, até então distante, de trazer algumas dessas ao Brasil. Ao chegar, elas não apenas encantaram o público, mas também impulsionaram o fazer teatral nacional, inspirando atores, diretores e coreógrafos a expandirem as linguagens e expressões do teatro brasileiro.


Nesse contexto, A Chorus Line tornou-se a primeira réplica original da Broadway a ser apresentada no Brasil, com a produção de 1983, assinada por Walter Clark, dirigida por Roy Smith e traduzida com perfeição por Millôr Fernandes. O espetáculo conquistou facilmente o público e foi um verdadeiro sucesso, que revelou nomes importantes no teatro e na televisão brasileira, como Claudia Raia, Raul Gazolla, Nadia Nardini, Totia Meirelles, Katia Bronstein, Maria Lúcia Priolli, Rita Malot, entre outros. 


Com apresentações em São Paulo e no Rio de Janeiro, a adaptação brasileira do consolidado musical inspirou muitas pessoas a seguirem o caminho da dança, do canto e da arte de modo geral. André Luiz Odin, integrante da atual produção da peça em São Paulo, afirmou sentir-se extremamente honrado com o intercâmbio entre o elenco de 1983 e o de 2025: “O meu personagem na história é o Greg, e quem interpretou esse papel em 1983 foi o Alonso Barros, que é meu mestre. Foi uma emoção dupla e estou muito feliz e realizado. 


42 anos depois: o retorno a São Paulo 

Em 2025, A Chorus Line celebrou 50 anos desde o seu lançamento e retornou à rota cultural de São Paulo, no Teatro Villa Lobos, com sessões de quinta a domingo, até 14 de dezembro. Sob a direção de Bárbara Guerra, versão de Miguel Falabella e direção musical de Jorge Godoy, a nova leitura preserva o caráter clássico da versão original, homenageia a ousadia e talento do grupo que brilhou em 1983 e reúne um dos melhores elencos do gênero vistos recentemente. Um destaque especial vai para Raul Gazolla, que esteve presente na montagem de 1983 e assume agora o papel de Zach, o coreógrafo que comanda a audição do corpo de baile. 



Atual elenco de “A Chorus Line” em São Paulo - Foto: Caio Gallucci
Atual elenco de “A Chorus Line” em São Paulo - Foto: Caio Gallucci

Com as novas apresentações, cada vez mais pessoas têm a chance de mergulhar na história da linha de coro mais famosa do teatro, que combina técnica e sensibilidade através de números memoráveis. Dentre os novos espectadores está Giovanna Camargo, estudante de relações públicas e apaixonada por musicais, que se emocionou com a montagem de 2025. Para ela, a experiência foi única: “Chorus Line é uma história que tem muito a tocar nas pessoas que tem ou já tiveram sonho de viver fazendo arte em qualquer instância”, Giovanna também revelou ter se identificado com os bailarinos em cena: “De certa forma, fui tocada por me enxergar naqueles candidatos que veem a arte como condição de existência tão importante como o oxigênio”. 


Ao longo de cinco décadas, a magia da história criada por Michael Bennett mostra que a cultura é um espaço de coragem, amadurecimento e desenvolvimento pessoal. Dos palcos da Broadway às montagens ao redor do mundo, com destaque para as duas apresentações brasileiras, o musical comprova que todos merecem ser protagonistas e que o corpo de baile pode, sim, ocupar o lugar da estrela principal de um espetáculo. Um turbilhão de amor e sinceridade em cena, A Chorus Line é, acima de tudo, uma declaração de amor em alto e bom som ao fazer artístico.


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