Brasil em cena: gargalos e a luta pela democratização cultural
- Portal EntreFocos

- 4 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Enquanto estreias internacionais lotam salas, metade do país segue sem acesso a cinemas e teatros
Miguel Calado
Supervisão: Prof. Antônio Iraildo Alves de Brito
Quando São Paulo recebeu a premiére de Wicked, não foi apenas um filme que desembarcou no país, mas um sinal claro de que o Brasil entrou de vez na rota das grandes produções internacionais. O tapete vermelho, as estrelas globais e a exibição antecipada reforçaram a força de um mercado que aprendeu a consumir musicais e a transformar estreias em eventos de massa. Esse movimento, porém, levanta uma questão essencial: até que ponto esse brilho alcança todos?
A arte não vive apenas nos holofotes das superproduções. Ela também está nos palcos independentes, nas praças e nos coletivos que lutam para existir longe dos grandes centros. Wicked é um fenômeno, mas sua grandiosidade contrasta com a realidade de um país onde milhões ainda não têm acesso a teatros ou cinemas e onde obras originais são interrompidas por falta de patrocínio. Entre o espetáculo e a escassez, surge um debate urgente sobre democratização cultural e investimento na criação nacional.
São Paulo no mapa das grandes estreias
A premiére de Wicked: Parte II em São Paulo não foi apenas um evento cinematográfico, mas um marco cultural que reafirma o Brasil como protagonista na rota das grandes produções internacionais. A Universal Pictures escolheu a cidade para abrir a turnê mundial, trazendo o diretor Jon M. Chu e estrelas como Cynthia Erivo e Jonathan Bailey para um encontro com fãs e imprensa. O tapete amarelo, inspirado na estética de Oz, transformou o espaço em um cenário digno de Hollywood, com ativações interativas, performances ao vivo e uma exibição antecipada do filme, duas semanas antes da estreia comercial. Essa escolha estratégica mostra como o público brasileiro, apaixonado por musicais, se tornou peça-chave para o sucesso global dessas produções.
Mais do que glamour, o evento revelou a força de uma comunidade que vive e respira arte. Entre os convidados, Gabriela, moradora de Florianópolis, sintetizou esse sentimento ao dizer: “Já vim para São Paulo assistir à peça com a Fabi Bang e com a Myra Ruiz cinco vezes.” A frase carrega a admiração de quem atravessa quilômetros para se conectar com uma história que a emociona. Esse engajamento explica por que o Brasil atrai cada vez mais estreias internacionais: aqui, todo espetáculo parece ser mais intenso.
O fenômeno nos palcos brasileiros
O sucesso de Wicked no Brasil não é um acaso, mas resultado de uma consolidação do teatro musical como produto cultural de massa. Desde sua primeira montagem em 2016, no Teatro Renault, o espetáculo atraiu mais de 340 mil espectadores, estabelecendo um novo padrão para produções internacionais adaptadas ao público brasileiro. Em 2023, a temporada no Teatro Santander reforçou essa tendência, com 156 mil ingressos vendidos em apenas cinco meses, um recorde histórico para a casa. Em 2025, a peça retornou ao Renault com uma montagem “não réplica”, trazendo atualizações técnicas, efeitos aprimorados e um elenco que dialoga diretamente com o filme. Myra Ruiz e Fabi Bang, protagonistas da versão nacional, também emprestaram suas vozes à dublagem oficial da produção cinematográfica.
A nova temporada contou com parcerias de grandes marcas, cenários grandiosos e ajustes técnicos em momentos icônicos como “Defying Gravity”, elevando o padrão de qualidade e aproximando a experiência brasileira da Broadway. Com mais de 100 mil ingressos vendidos apenas no primeiro mês e sessões extras anunciadas após a centésima apresentação, Wicked confirma que o teatro musical deixou de ser nicho para se tornar um segmento robusto, capaz de movimentar milhões e atrair patrocinadores, consolidando São Paulo como epicentro desse movimento.
Só que não! O brilho não alcança todos
O sucesso de uma peça internacional pode sugerir um cenário cultural vibrante e acessível, mas os números contam outra história. Segundo o IBGE, 42,5% da população brasileira vive em cidades sem cinemas, e 30,6% não têm teatros ou casas de espetáculo. Apenas 9% dos municípios possuem salas de cinema, e 23,3% contam com teatros, revelando uma desigualdade estrutural no acesso à cultura. Essa ausência é ainda mais grave nas regiões Norte e Nordeste, onde 70% das pessoas precisam viajar mais de uma hora para chegar a um museu ou teatro.
Enquanto isso, os investimentos se concentram em grandes produções. A Lei Rouanet bateu recorde no primeiro trimestre de 2025, com R$ 305 milhões captados, um aumento de 71,3% em relação a 2024. No entanto, boa parte desses recursos vai para projetos com apelo comercial e visibilidade nacional, deixando coletivos periféricos e obras independentes à margem. Em São Paulo, o Programa de Fomento à Cultura da Periferia disponibilizou R$ 13,7 milhões em 2025, com valores entre R$ 154 mil e R$ 462 mil por projeto. Um avanço importante, mas insuficiente diante da demanda crescente.
Essa disparidade se traduz em histórias como a do musical Tatuagem, obra original brasileira, escrita e produzida por artistas nacionais, que precisou interromper sua temporada por falta de patrocínio. Casos assim se multiplicam, mostrando que talento não basta quando os mecanismos de financiamento falham. Para Nicolas Avansini, estudante de teatro e criador de conteúdo com mais de 1,5 milhão de seguidores, essa realidade é frustrante: “Existe sim essa frustração em ver um musical independente com ótimos atores, direção, talento não poder continuar por conta da falta de patrocínio.” A fala ecoa um problema crônico: sem políticas robustas e investimento privado consistente, o Brasil corre o risco de celebrar espetáculos importados enquanto sufoca sua própria produção artística.
Entre o concerto e a urgência
O Brasil mostrou ao mundo que pode ser palco para estreias globais e para produções que movimentam milhões, como Wicked. Essa visibilidade reforça a potência do mercado nacional e a capacidade de atrair investimentos, consolidando São Paulo como um hub cultural na América Latina. Mas, ao mesmo tempo, expõe um contraste que não pode ser ignorado: enquanto alguns palcos brilham com cenários grandiosos, outros permanecem apagados, à espera de recursos que nunca chegam.
Os dados são claros. Quase metade da população vive em cidades sem equipamentos culturais básicos, e a concentração de patrocínios em projetos de grande apelo comercial perpetua desigualdades históricas. A interrupção de obras como o musical Tatuagem não é um caso isolado, mas um sintoma de um sistema que ainda não encontrou equilíbrio entre o glamour das superproduções e a sobrevivência da arte independente.
O desafio, portanto, é transformar o entusiasmo gerado por eventos internacionais e glamurosos em políticas efetivas e investimentos que democratizem o acesso e fortaleçam a criação nacional. Porque, no fim, a relevância cultural de um país não se mede apenas pelo tamanho dos espetáculos que ele recebe, mas pela diversidade e vitalidade das histórias que ele é capaz de contar. E essas histórias, para existirem, precisam de palco, público e, sobretudo, oportunidade.








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