Força estética na experiência vegana
- Portal EntreFocos

- 4 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
O papel do ambiente e a representação do veganismo no Clarice Café & Cozinha
Thayná Araujo
Supervisão: Prof. Antônio Iraildo Alves de Brito
No número 387 da Rua Major Maragliano, na Vila Mariana, está o Clarice Café &Cozinha, um estabelecimento vegano e com ambientação literária. O espaço prende a atenção dos passantes pelas frases de livros nas paredes da entrada. O cheiro familiar de comida e café mistura-se aos sons do vai e vem cotidiano. A luz amarelada, as poltronas confortáveis e a calmaria parecem dizer ao visitante: sente-se, saboreie e leia um pouco. Ali, a cozinha vegana é vivenciada em cada detalhe. É um manifesto discreto sobre novas formas de viver e se alimentar.
O cardápio, semelhante a um dicionário clariciano, traz títulos curiosos que despertam o desejo de descobrir do que se trata cada prato. A riqueza vai da comida brasileira à indiana, árabe e africana, com combinações criativas e ingredientes de origem vegetal, que indicam que comer sem carne pode ser também um ato de afeto, estética e consciência.
Mas o Clarice não é apenas um café. Ele representa um movimento crescente em direção à alimentação plant-based (100% vegetal) e ao consumo de opções mais saudáveis, que se tornou muito procurada em restaurantes nos últimos anos. De acordo com pesquisa da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), realizada no final de 2024, 42% das pessoas afirmam que deixariam de comer carne pelo meio ambiente e 43% pelos animais.
Para a vegetariana e professora com experiência em economia, Patrícia Basílio, essa mudança está diretamente ligada a uma consciência ambiental e ética: “As pessoas começaram a perceber a agressão aos animais e, a partir disso, estão reduzindo o consumo”, afirma. “Hoje já se entende que dá para cozinhar coisas muito boas e estão vendendo muitos alimentos sem carne, fáceis de cozinhar”.
Celebrado em 1º de novembro, o Dia Mundial do Veganismo funciona como um marco simbólico para reforçar que as escolhas à mesa impactam diretamente as relações com os animais e o meio ambiente, além de carregarem dimensões políticas e afetivas. Com a expansão do debate, novos hábitos de consumo surgiram, e a experiência gastronômica passou a envolver estética, identidade e valores.
A publicitária Ediliane Boff explica que, quando uma marca define um propósito, o design pode atuar como ferramenta para desmistificar preconceitos: “Tudo precisa estar alinhado: o visual, o produto, o modo de trabalho e o valor dado às pessoas. É isso que constrói uma marca coerente”. Patrícia complementa ao dizer que “a estética instagramável ajuda bastante. Esses espaços têm uma proposta crítica e conceitual, e os consumidores, sobretudo os jovens, buscam lugares que dialoguem com seus valores”.
Entretanto, em um país fortemente marcado pelo agronegócio e por uma cultura alimentar centrada na proteína animal, o crescimento do veganismo ainda encontra resistências. “E quando isso acontece, eu acho que é uma perda. Porque a pessoa perde um riquíssimo sabor de comida e de variedade” relata Amanda Romão, secretária e atendente do Clarice Café & Cozinha.
A associação à restrição ou elitização representa um obstáculo para pequenos empreendedores que apostam em cardápios plant-based. Além disso, há um receio em torno da palavra “veganismo”, oque faz com que estabelecimentos precisem abordar a comida como “saudável” ou “cozinha vegetal” a fim de não perder o público, complementa Amanda. Nesse contexto, os comércios precisam equilibrar princípios sustentáveis com estratégias de sobrevivência em um mercado que ainda não oferece condições amplamente favoráveis à produção consciente.
“A própria existência do Clarice é uma forma de combate à maneira como a sociedade vê o veganismo” afirma Amanda.
A conexão da proprietária, Claudia Dib, com a autora Clarice Lispector, proporcionou um local que une o veganismo e a estética acolhedora, e que atrai um público diverso, de estudantes a visitantes de outras cidades. Mesmo que a ideia de lugar instagramável não tenha sido considerada na hora do planejamento e construção da marca, Amanda reconhece que "as pessoas adoram vir, tirar fotos e ficar com amigos” e isso resulta em elas se “abrirem” para a cultura vegana.








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